sábado, 22 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade

MUITO GRANDE


Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

domingo, 25 de setembro de 2011

TURBILHÃO DE SENTIMENTOS I

Uma tradução de alguns dos sentimentos que tenho...

Teatro dos Vampiros

Renato Russo

Sempre precisei de um pouco de atenção

Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto.
E destes dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos

Esse é o nosso mundo:
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance.
Ninguém vê onde chegamos:
Os assassinos estão livres, nós não estamos.

Vamos sair - mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas.

Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir.
Esquecer, essa noite ter um lugar legal pra ir...
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas possam se encontrar.

Quando me vi tendo de viver comigo apenas
E com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei

Não sou perfeito
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir

Comparamos nossas vidas
E mesmo assim, não tenho pena de ninguém.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Cansado!

As palavras nasceram para serem repetidas mas nós temos um vocabulário tão grande que fica muito óbvio repeti-las sempre obedecendo a mesma sequencia, e eu queria dizer o que eu já ouvi de alguém mas de outra maneira, porém e sobretudo, dizer que me sinto cansado...
De muita coisa e de nada, de mim, do que eu tenho sido... e principalmente do que não tenho me permitdo ser...
Cansado...

sábado, 3 de setembro de 2011

Sobre as relações e suas rupturas...

Depois de perceber que a maioria das pessoas ficam abismadas quando sabem que eu mantenho amizade com os meus ex namorados, passei algum tempo dedicando meus pensamentos a essa causa, tentando entender por que isso provoca espanto.
Sou amasiado com outro homem há três anos e meio, fui pulando de uma relação para outra, nos últimos oito anos. Agora estou na quarta história, e os meus amores anteriores continuam fazendo parte de minha vida, e fazem também parte dessa história atual por que se tornaram amigos também do meu namorado. Saímos juntos, nos divertimos, fazemos farras aqui pra casa de vez em quando, e é tudo muito saudável.
Algumas pessoas perguntam: ainda rola sexo? Não rola! Viramos irmãos, depois de algum tempo em cada relação o sexo toma outro rumo, pelo menos comigo, conosco, e na forma como essas relações foram conduzidas, isso aconteceu.
Essas relações foram histórias normais de casais, a paixão intensa do inicio, o amor cuidadoso, mais os traços de egoismo que permeiam todo conflito entre seres humanos, conflitos que nos fizeram mudar, crescer, aprender, odiar em alguns momentos, mas o amor que nos uniu sempre foi mais forte do que qualquer outra coisa. Esse amor, eu sei, eu sinto, eu acredito, é para sempre. Muitos ainda não entendem como nós conseguimos manter laços fraternais tão fortes, é importante pra mim manter o que construímos de bom, de amizade, de carinho...
O ser humano, por conta dessa formação católica cristã criou o hábito de separar entre o que é do bem e o que é do mal, céu ou inferno, Deus ou Diabo, e a partir disso, vive com a mania de incluir e excluir pessoas de suas vidas, e quando lhes convém dizer que essas são boas ou más... Ninguém é completamente bom, não há ser humano que não tenha defeitos. Ninguém é tão mau que não tenha nada a contribuir na sua vida, se não não teria acontecido o casamento.
Resiliência e tolerância são qualidades que devemos sempre nos esforçar para cultivar em nós mesmos, isso se propaga naturalmente... como diria o profeta: "gentileza gera gentileza".